Um exercício de prudência para enxergar o que a rotina, o apego e o orgulho nos impedem de ver.
Em 2019, a Via Varejo — a companhia por trás de marcas como Casas Bahia, Ponto Frio e Extra — fechou um trimestre com prejuízo de 163 milhões de reais. Havia ficado para trás na corrida do e-commerce e carregava um time desengajado. Foi quando Roberto Fulcherberguer assumiu o comando.
Perguntado depois sobre como reergueu a empresa, contou, em entrevista à Você S/A, que sua primeira decisão foi montar uma nova diretoria executiva. Pouco tempo depois, os resultados começaram a aparecer: a operação digital ganhou força e as ações se valorizaram de forma expressiva.
Note o reflexo. Quando as coisas vão mal em uma companhia, a primeira medida, quase sempre, é trocar a liderança. Muda o líder, muda tudo — parte-se do princípio de que a pessoa certa, com olhos novos, faria o que a atual não está fazendo.
Guardo esse princípio, mas o viro do avesso. Em vez de aplicá-lo apenas aos outros, volto-o contra mim.
São duas perguntas que me faço com frequência. A primeira: se eu fosse substituído hoje — se me tirassem da cadeira e trouxessem alguém que admiro para o meu lugar —, o que essa pessoa faria que eu não estou fazendo?
A segunda: e se fosse eu, esta manhã, assumindo pela primeira vez a empresa que já dirijo? Como leria o cenário com olhos de quem chega? O que veria que a convivência diária me impede de ver?
Descobri, com o tempo, que essa intuição não é minha, e não é nova. É um dos movimentos mais célebres da história da gestão.
Em 1985, a Intel perdia dinheiro em seu negócio de memórias, pressionada pelos concorrentes japoneses. As memórias eram a identidade da empresa — “a Intel era as memórias”, diria mais tarde Andy Grove. Numa tarde sombria, olhando pela janela a roda-gigante de um parque ao longe, Grove virou-se para Gordon Moore, presidente do conselho, e fez a pergunta que salvaria a companhia: se os dois fossem demitidos e o conselho trouxesse um novo executivo, o que ele faria?
Moore respondeu sem hesitar: nos tiraria das memórias.
Grove encarou-o, atônito, e disse: então por que nós dois não saímos por aquela porta, voltamos, e fazemos isso nós mesmos?
Foi o que fizeram. A Intel abandonou as memórias, apostou nos microprocessadores e se tornou uma das empresas centrais da nova era da computação. Grove narra essa cena em Só os Paranoicos Sobrevivem.
O que Grove e Moore fizeram foi contrabandear para dentro de si a objetividade de um estranho. Precisaram fingir que não eram eles para enxergar o óbvio — porque a cultura que os havia construído também os cegava. “O que fazemos” tornara-se “quem somos”, e só saindo de si conseguiram se libertar.
Essa disciplina de sair de si para ver melhor é muito mais antiga que qualquer manual de negócios. Os estoicos a praticavam como exercício de virtude. Sêneca aconselhava escolher um homem de bem — um Catão — e mantê-lo sempre diante dos olhos, vivendo como se ele nos observasse, medindo cada gesto por esse modelo.
Marco Aurélio abre suas Meditações não com conquistas, mas com uma lista do que aprendeu de cada pessoa que cruzou sua vida: do avô, a serenidade; do pai, a modéstia; e assim por diante.
É o mesmo movimento, com séculos de distância. O que a gestão chama de objetividade do estranho, a filosofia chama de imitação dos melhores. Pedir emprestado os olhos de alguém maior não é fraqueza; é sabedoria antiga.
Transformo isso em um exercício simples, que faço com regularidade. São três passos.
Primeiro, estudar. Escolho alguém que produziu resultados notáveis e mergulho em sua história, especialmente em um caso concreto: o que enfrentou, o que decidiu, por que decidiu.
Segundo, imaginar. Procuro um lugar tranquilo, alguns minutos de silêncio sem interrupção, e coloco essa pessoa dentro da minha realidade. Imagino-a entrando na empresa, sentando-se à mesa na primeira reunião conosco. Então pergunto: onde ela focaria? O que estabeleceria como prioridade? O que eliminaria sem hesitar? O que nos apontaria que fingimos não ver?
Terceiro, anotar. Escrevo cada percepção que veio e, quase sempre, escolho uma ou duas para pôr em prática ainda naquela semana — porque percepção que não vira ação evapora.
Não foram poucas as vezes em que esse exercício me mostrou algo que eu tinha diante dos olhos e já não via. Muito do que os grandes líderes aprenderam está disponível a qualquer um de nós. Basta ter a humildade de olhar.
A segunda pergunta — assumir a própria vida como um recém-chegado — é mais difícil, porque exige julgar a si mesmo. Grove dizia que quem quer manter o emprego, quando o essencial do negócio muda, precisa adotar a objetividade de um estranho, livre de apego emocional ao passado.
Vale para a empresa e vale para o homem.
As decisões que tomei ontem, os hábitos que me trouxeram até aqui, a versão de mim que funcionou por anos — nada disso tem direito adquirido. De tempos em tempos, é preciso sair pela porta e voltar disposto a fazer o que o amanhã exige, não o que o ontem pedia.
E aqui chego ao fundo da questão, que não é apenas técnica, nem apenas psicológica. É moral — e, para mim, também espiritual.
Por que esse exercício é possível? Porque há em cada um de nós uma capacidade real de mudança — não um poder mágico a ser destravado, mas uma vocação a ser assumida.
A tradição cristã diz que fomos feitos à imagem de Deus e chamados a cuidar da criação. Aprendi a ler esse chamado não como licença para dominar, mas como responsabilidade para servir — mãos que cultivam, não punho que conquista.
A dignidade que carregamos não é uma reserva de força para nos exaltar; é o chamado a nos tornarmos quem fomos feitos para ser, e a pôr isso a serviço dos outros.
Aristóteles tinha uma palavra para essa passagem do que podemos ser ao que de fato nos tornamos: transformar potência em ato. É o trabalho de uma vida inteira — e não se faz sozinho.
Eu não. Nós.
Se você chegou até aqui, talvez as coisas na sua jornada não estejam tão leves quanto poderiam. Não trago fórmula, nem promessa fácil. Trago um convite: escolha alguém maior que você, empreste os olhos dele por alguns minutos e pergunte, com coragem, o que você não está vendo.
Depois, saia pela porta e volte disposto a mudar.